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Copinha terá time indígena da cidade onde a vida 'vale pouco'


A cidade brasileira onde a vida vale pouco, muito pouco, terá um time na próxima Copa São Paulo de Futebol Júnior.Trata-se de Tabatinga, no Amazonas, município de 60 mil habitantes próximo da fronteira com Peru e Colômbia. No local, o Grêmio Osasco, equipe da Grande São Paulo, está selecionando indígenas para montar um time e disputar a mais famosa competição de base do futebol brasileiro no ano que vem.

A cidade tem o 3º maior índice de suicídio entre jovens do Brasil, segundo o "Mapa da Violência 2014", elaborado pelo professor Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

É também a 2ª em suicídio de indígenas jovens, atrás apenas de São Gabriel da Cachoeira, também no Amazonas.

"A taxa de suicídios de jovens é sete vezes maior que a média do Brasil. Lá, entre os suicídas, 65% são jovens entre 15 anos e 29 anos. Em 2009, o local chegou a ter 15 suicídios, e foi a cidade com o maior índice de suicídios no país", explicou Waiselfisz, à Rádio ESPN.

A situação para os jovens na localidade do Amazonas é péssima. Com uma taxa de 37,3 suicídios para cada 100 mil habitantes, Tabatinga seria líder do ranking mundial, já que a Coreia do Sul, país com maior taxa de suícidios do mundo, tem índice de 32,6.

Pior: como ressalta Julio Jacobo, o número de suicídios de jovens na cidade amazonense é mais de sete vezes maior que a média brasileira, que é de cinco para cada 100 mil habitantes.

Em Tabatinga, a maioria dos índios é da tribo Ticuna, que se espalha por Brasil, Peru e Colômbia na área do Alto Solimões.

Segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio), não há explicação certa para a propensão ao suicídio. Brigas de jovens com pais, namorados(as) e cônjuges são apontados como "motivos aparentes".

Contudo, de acordo com a antropóloga Regina Erthal, pesquisadora do curso de pós-graduação em antropologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), as causas dos sucícios entre jovens podem ir de conflitos entre clãs até problemas como a depredação ambiental, disse ela, em entrevista à Folha de S. Paulo.

As técnicas de suicídio mais comum são enforcamento e ingestão de timbó, veneno extraído de uma planta comum na Floresta Amazônica, que leva à morte por asfixia.

O time

A ideia de formar um time indígena para dispustar a Copinha pelo Grêmio Osasco foi do dono do time paulista, Mário Teixeira. Ele mandou o treinador da equipe sub-20, Edu Lopes, e o preparador físico Antônio Pará por um mês para Tabatinga, em busca de novos talentos. A habilitade de alguns dos jovens locais surpreendeu Lopes.

"Achamos que íamos encontrar caras ruins, mas encontramos bons jogadores! Eles evoluíram muito neste período de treinamentos, na parte física e técnica. A gente está trabalhando a cabeça deles para não se assustarem na Copa São Paulo, por isso vamos chegar antes e fazer amistosos contra grandes equipes para não sentirem tanto", contou.

Durante um mês, Lopes e Pará fizeram avaliações nas tribos de Tabatinga e selecionaram os melhores para a equipe. O Grêmio Osasco montou estrutura na cidade, com alojamento, refeição, escola e campo para treinamento.

"A vida deles é diferente, muito longe de São Paulo, no meio da floresta, mas eles gostam muito de futebol. Isso pra mim é o maior prêmio. Queremos mostrar os talentos daqui para o mundo", afirmou o preparador.

A dupla também conta com a ajuda de um tradutor, pois alguns dos garotos não falam português, somente o dialeto da tribo, além de Helinho, um morador de Tabatinga que se entusiasmou com o projeto e resolveu ajudar. Acabou virando roupeiro e massagista.

"A maioria dos meninos chega uma certa idade, com 15 ou 16 anos, e entra nas drogas ou vira pistoleiro, por falta de opção, mesmo. Pra mim, é uma satisfação muito grande ajudar com esse projeto, aqui no final do Amazonas, que é o começo do Brasil", celebrou.

No início de dezembro, os garotos embarcam para Osasco, onde ficarão alojados no Centro de Treinamento do Grêmio Osasco e disputarão amistosos antes da estreia na Copa São Paulo. Será a primeira vez que os indígenas viajarão de avião.

A equipe da Grande São Paulo está no grupo de Flamengo, Sampaio Correa e Vilhena na Copinha, que começa em janeiro do ano que vem e tem final marcada para o dia 25 do mesmo mês.

"Eles são muito jovens, temos meninos de 15 anos que nunca disputaram campeonato de alto nível. Mas, com a motivação deles, esperamos superar isso", exaltou Edu Lopes.

créditos: Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN




 

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